quinta-feira, 14 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

RELATÓRIO
 DE 7 DE MARÇO DE 1794
 DO
MARECHAL-DE-CAMPO
 D. ANTÓNIO DE NORONHA (1)

" Em observância da ordem de V. Exa. declaro o seguinte:

Colecção particular
Em 19 de Novembro de 1793, marchei por ordem de V. Exa. para Figueiras, para V. Ex. ali me comunicar as ordens que recebesse do General Ricardos, sobre a acção que se intentava com as nossas tropas contra o inimigo pelas partes de Banhules e Sant Elmo; dirigiu-se V. Exa. a Figueiras no dia 20 , fez expedir o seu Ajudante-General, outros três ajudantes das suas ordens, para prover remédio às tropas que marcharam por outro caminho, de que necessitassem, para no dia seguinte V. Exa. e eu marcharmos, ao Quartel-Mestre-General espanhol, para a referida acção; houve contra ordem, segundo os avisos, que os três generais espanhóis, Cajical, Áries e Vives fizeram, pessoalmente por os franceses terem mudado de posição, e por consequencia era impossível o ataque nesse mesmo dia."

Mandou-me V. Exa. para a Junqueira, para fazer marchar as tropas que ficaram na retaguarda, para irem acampar a Bouto, segundo as ordens que V. Exa. ali recebeu do General Ricardos. Chegou V. Exa. à Junqueira no dia 22, continuei eu a ficar no mesmo sítio por ordem de V. Exa. até fazer recolher o Regimento de Peniche. Logo que passou por aquela vila, me apresentei a V. Exa.no dia 28 em Ceret.

Colecção particular
No dia 5 de Dezembro marchei por ordem de V. Exa. com quatro peças de artilharia pequenas e dois Regimentos. O 2.º do Porto e o 1.º de Olivença para o campo do Tenente-General Courten, onde se uniu comigo o Regimento de Freire, que deveria fazer reserva no dia do ataque das baterias de Vila Longa, tudo debaixo da ordem do Tenente-General Courten, em cuja acção comandei a coluna que atacou as sobreditas baterias. No dia 7 de madrugada acabei a minha comissão naquele mesmo dia, e por não haver mais nada que fazer, e achando-me alguma coisa  molesto recolhi-me ao quartel de Ceret. No dia 9, foi o Marechal-de-Campo, D. João Correia de Sá comandar o regimento de que é chefe, e o de Olivença que ainda ali ficou algum tempo. Seguiram-se os acantonamentos em Val Spire e findou a campanha de 22 de Dezembro.

Distribuíram-se os quartéis de Inverno, mandou-me V. Exa. para Banhos com o Regimento de Olivença, ficando ali também comandando o 2.º do Porto, que se acha em Paralda.

Segundo a ordem dos quartéis, estamos no lugar que nos pertence; a tropa portuguesa, é certo que o serviço que faz é penoso, porque sem embargo de ser utilidade nossa, nunca pertenceu à tropa de linha fazer guardas; é o serviço que em toda a parte do mundo faz a tropa ligeira; as consequências são as que V. Exa. não ignora, que é a multidão de doentes, que entram nos hospitais, e a falta de disciplina, que se lhe devia administrar para entrarem em campanha futura; cuja senão pode por em prática, visto o pesado serviço que se está fazendo; sei que V. Exa. tem requerido providências ao general espanhol, que comanda a linha de quartéis; mas também sei que as não tem dado.




Colecção particular

É certo que os dois Regimentos portugueses que se acham em Ceret destacados, Peniche e 1.º do Porto, nos fazem uma grande falta, para aliviarem o serviço rigoroso, que estão actualmente fazendo os quatro Regimentos: Cascais, Freire, 1.º de Olivença e 2.º do Porto, sem ambargo dos últimos ofícios que V. Exa. recebeu da nossa Corte, cujos me fez ver, e que alguma coisa lhe ampliam mais jurisdição de que as primeiras ordens, que o acompanharam no capítulo que V. Exa. leu na minha presença e na dos meus companheiros, D. Francisco Xavier de Noronha e D. João Corrêa de Sá; em me não atrevo a discernir que V. Exa. tire aqueles dois Regimentos, de Peniche e 1.º do Porto da guarnição de Ceret, sem que o general espanhol dê as providências que tem permitido em virtude das instâncias de V. Exa. para que venha tropa castelhana fazer o serviço que fazem os sobreditos Regimentos

Eu faria uma dissertação em que mostrasse bem claramente a diferença que há no serviço entre tropas auxiliares de linha, e tropas ligeiras; também não me esqueceria de falar na retirada da tropa portuguesa, no caso de ser atacada nos seus quartéis ; porém tocar estes pontos, era supor que V. Exa., os ignorava, quando estou muito bem certo que V. Exa. conhece em perfeição a natureza e delicadeza deles; a experiência me tem mostrado que V. Exa. se não esqueceu de nada que é útil, tanto para o Exército de S. M. Fidelíssima, como em buscar tudo o que é útil também para a conservação da tropa da mesma Senhora"

A este respeito tenho respondido segundo as ordens de V. Exa.

Quartel em Banhos, 7 de Março de 1794

D. António de Noronha"

(1) - Manuscrito de colecção particular

Ilustrações: marr

domingo, 3 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

ORGANIZAÇÃO
EQUIPAMENTOS E BAGAGENS(1)

No respeitante aos equipamentos e bagagens foi bem especificado o tipo de viaturas e as marcas identificativas que elas deveriam levar, assim como  muitas outras normas e recomendações; dessas instruções apenas se transcreve algumas julgadas mais interessantes para este caso específico:

- Os oficiais generais e demais chefes dos diversos estados-maiores, podiam utilizar carruagens, além dos cavalos e bestas de equipagem que a cada um competia.

- Não lhes era permitido levarem atrás das suas bagagens carros de padeiros, vivandeiros, cortadores, etc., com excepção quando esses oficiais comandassem os corpos em separado e após ordem do respectivo general.


- As carruagens dos oficiais generais exibiam nas portas as suas armas, no caso de as terem, ou então os seus respectivos nomes; a todos os outros oficiais superiores que tinham direito a carruagem pintavam-se os seus nomes e o do respectivo regimento nas portas. Os trens dos oficiais generais eram em tudo muito idênticos aos dos seus parceiros espanhóis.

- Os cirurgiões-mores e os ajudantes dos generais do estado-maior eram-lhes dispensadas "seges de duas rodas".

- Nos transportes dos vivandeiros do Quartel-General colocavam-se os nomes dos respectivos utilizadores e o número de registo, que lhes tinha sido fornecido pela policia.

Colecção particular

 
O Intendente-Geral das Carruagens, destinava um local para a concentração das viaturas de transporte e uma vez ali reunidos, ele coadjuvado pelos seus ajudantes, colocavam-nas por filas e pela seguinte ordem:

TRENS MIÚDOS:
- General
- Intendente-Geral das Carruagens
- Tesoureiro-Geral
- Quartel-Mestre-General do Exército
- Ajudante General
- Intendente Geral dos Viveres
- Marchante ou Controlador Geral das Carnes
- Ajudantes dos três Estados-Maiores
- Voluntários do Exército e outras anexas ao Quartel-General
- Vivandeiros, que só tinham direito a bestas de carga e cuja
  quantidade era regulada pelo Quartel-Mestre-General. 


Colecção particular


TRENS DE BAGAGENS PESADAS:
Marchavam a seguir aos antecedentes e na mesma ordem, com excepção para as carruagens do Tesoureiro-Geral e do Intendente-Geral dos Viveres que iam à testa, procedendo as do general do Exército. Os carros espanhóis, que iam carregados de forragens, eram anexos à Intendência dos Viveres e marchavam em seguimento aos carros dos Vivandeiros.

As carruagens dos regimentos levavam o nome do Corpo a que pertenciam, do seu proprietário e a que fins se destinavam; o primeiro animal de carga do respectivo trem que pertencia ao coronel, levava uma pequena bandeirola em que ia marcado o nome do regimento.


DA MESA DOS OFICIAIS E OUTROS OBJECTOS DE LUXO
UTILIZADOS EM CAMPANHA

COMANDANTE-EM-CHEFE E TENENTES-GENERAIS
Não podiam exceder o número máximo de dezoito talheres à sua mesa; era total a proibição da utilização de baixelas de prata, com excepção para os talheres e "outros trastes miúdos de mesa" assim como toda e qualquer espécie de porcelanas, centros de mesa floridos, cristais e outros ornamentos de mesa.

MARECHAIS-DE-CAMPO
Não podiam exceder nove talheres por refeição

CORONÉIS
Seis talheres no máximo e por refeição e "não poderão ser servidos senão de uma comida simples e militar, sem que se divise luxo. E para que este artigo não fique ao arbítrio, Sou Servida a fixar o número de pratos a uma sopa, um prato de cosido, dois de legumes, uma entrada e um assado, podendo-se variar de quando em quando, algum destes pratos no que tocar à qualidade, mas nunca no que respeita ao número e quantidade, podendo usar sobremesa dois pratos de fruta, um de queijo e outro algum doce".

Colecção particular
ARTILHARIA

PARQUE(2)
Era composto pelas seguintes peças:

- 14 de três polegadas

- 8 de seis polegadas

- 4 de doze polegadas

- 4 obuses de seis polegadas

 

EQUIPAGEM DO TREM(3)
O seu efectivo era constituído por 5 oficiais; 11 oficiais inferiores,
1 tambor e 100 praças.

MATERIAL
- Reparos: 7 para obus de 6"; 2 para peças de 6" e 14 para peças
  de 3"
- Galeras: 7
- Carros de Mato: 15
- Carros para Pólvora: 12
- Carros para Miudezas: 21
- Forjas de Campanha: 2
- Caixões: 12
- Canastros para Peças: 28.

 

Colecção particular


MUNIÇÕES:
- Em cada dois Canastros iam 44 cartuchos de peça.
- Em cada Carro de Mato, que acompanhava duas peças, iam 140
  cartuchos; nos Caixões de cada obus transportavam-se   
  8 granadas; nos das peças de 6" e em cada Carro de Mato iam 22
  granadas e 8 lanternetas.


NÚMERO DE COFRES DE OFÍCIOS:
- Ferreiro: 4
- Serralheiro: 2
- Carpinteiro de Machado: 4
- Carpinteiro de Obra Branca: 2
- Tanoeiro: 2
- Funileiro: 2
- Cordoeiro: 1
- Cesteiro: 1
- Torneiro: 1
- Ferrador: 3
- Seleiro: 1
- Correeiro: 1

 
Colecção particular
BARRACAS:
- Major: 2
- Capitão: 4
- Subalternos: 18
- Capelão: 1
- Para "dizer Missa" : 1
- Cirurgião-mor
- Vivandeiro para o Trem: 12
- Laboratório: 2
- Servirem de Armazém: 2
. Diversos usos: 66





Os restantes militares utilizavam barraquins, além dos pavilhões com os seus sarilhos para guardar os fuzis.

Notas:
(1) -In: "Instrucção com que Vossa Magestade manda passar ao reino da Hespanha o Marechal-de-Campo João Forbes de Skellater, em qualidade de Commamdante-em-Chefe das suas tropas, dado no Palácio de Queluz, aos 10 dias do mez de Setembro do anno de 1793", documento manuscrito in: Arquivo Histórico Militar.
(2) - Documento da: 1.ª Divisão, 10ª Secção, Caixa 1, Documento 1 (A.H.M.)

Coorden. do texto e ilustrações de : marr