sexta-feira, 15 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

UNIFORME PARTICULAR PARA OS OFICIAIS DO ESTADO-MAIOR
PERTENCENTES AO EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA

Encontra-se no Arquivo Histórico Militar (1) um interessante manuscrito onde os oficiais do Estado-Maior solicitam um uniforme particular. Por se tratar de um documento extremamente importante para o estudo dos uniformes  portugueses e em virtude de nunca ter sido publicado decidi transcrevê-lo:
" S. M. Atendendo ao que se lhe apresentaram os oficiais do E. M. Do Corpo que passa a Espanha, foi servida conceder-lhe licença para poderem usar naquele Reino e no serviço de campanha de um uniforme azul com a gola encarnada, forro da mesma cor e veste branca com bordadura ou galão de ouro na mesma gola e canhões, o que participo a V. Exa. para que lhe seja constante e para que assim faça participar ao oficial General Comandante do referido Corpo..
Palácio em Queluz, 9 de Setembro de 1793.
Ass. Luís Pinto de Souza"

(1) - In: A.H.M., 1.ª Divisão, 10ª Secção, Caixa 1, n.º 20




ARMAMENTO E EQUIPAMENTO

OFICIAIS
CORONEL A TENENTE

ESPADAS


Colecção particular

Espadins de Vela e muito principalmente de Copos, que tanto podiam ter os enrolamentos dos punhos em fio de prata ou ouro, o copo e a guarda eram dourados, prateados ou em latão; lâmina de dois gumes, folha direita e estreita, vendo-se algumas com inscrições, tudo dependendo das posses do respectivo oficial, que muitas vezes as mandavam fabricar nos melhores armeiros nacionais e estrangeiros, vendo-se preferencialmente lâminas fabricadas em Toledo.



Colecção particular

Colecção particular
















BAINHA
De couro preto com ponteira e bocal dourado ou prateado

PISTOLAS
De diversos modelos e proveniências.
Colecção particular



Colecção particular















ALFERES

ESPONTÃO
Além do florete, alguns alferes utilizavam o espontão que era uma arma de haste de folha curta com dois gumes

Colecção particular

OFICIAIS INFERIORES

SARGENTOS

ALABARDA
Além do florete, utilizavam uma alabarda comprida e com um ferro bastante trabalhado

Colecção particular


OFICIAIS INFERIORES
(OUTROS)
 E PRAÇAS

FUZIL
De fechos de sílex, de carregamento pela boca e de diversos modelos fabricados no Arsenal do Exército e de vários calibres, além de outros modelos estrangeiros, que nos tinham sido fornecidos nomeadamente pela Grã-Bretanha, durante a Campanha de 1762

Colecção particular


Colecção particular


Colecção particular




BAIONETA
De lâmina de secção triangular com goteiras nas faces, terminando por uma ponta de estoque e formando, posteriormente, um cotovelo ligado a um tubo (alvado) que servia de punho e para ligar ao cano do fuzil, havendo nesse tubo um mecanismo de encaixe para permitir uma sólida e segura união.
Colecção particular


EQUIPAMENTO

OFICIAIS

GOLA DE SERVIÇO
Gola original
Colecção particular
Em forma de meia-lua de metal dourado com as Armas de Portugal em prata. utilizava-se suspensa ao pescoço preso por um cordão de fio de ouro ou prata, ou por fitas de seda geralmente brancas.









FIADOR PARA ESPADA
De liga de ouro ou prata, terminando numa borla com franjas de canutilhos

TALABARTE
De couro branco com pala para o espadim, fivela dourada ou de prata.

Colecção particular


OFICIAIS INFERIORES E PRAÇAS

PATRONA
De couro preto suspensa por uma correia de couro branco, colocada a tiracolo da esquerda para a direita
Colecção particular
TALABARTE
De anta tinginda de branco, de onde suspende a pala para a baioneta, coloca-se a tiracolo na posição oposta à correia da patrona

MOCHILA
De pele de cabra, de diversos tons, com três correias para fechar e duas para suspender aos ombros


Colecção particular

BORNAL
De tecido grosseiro ou serapilheira, com uma correia ou corda para colocar a tiracolo ou ao ombro.

CANTIL
Existiam de diversos modelos: de madeira, cabaças, frasco que poderia ser empalhado ou encapado de couro, e a borracha.

Texto e ilustrações: marr

quinta-feira, 14 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

RELATÓRIO
 DE 7 DE MARÇO DE 1794
 DO
MARECHAL-DE-CAMPO
 D. ANTÓNIO DE NORONHA (1)

" Em observância da ordem de V. Exa. declaro o seguinte:

Colecção particular
Em 19 de Novembro de 1793, marchei por ordem de V. Exa. para Figueiras, para V. Ex. ali me comunicar as ordens que recebesse do General Ricardos, sobre a acção que se intentava com as nossas tropas contra o inimigo pelas partes de Banhules e Sant Elmo; dirigiu-se V. Exa. a Figueiras no dia 20 , fez expedir o seu Ajudante-General, outros três ajudantes das suas ordens, para prover remédio às tropas que marcharam por outro caminho, de que necessitassem, para no dia seguinte V. Exa. e eu marcharmos, ao Quartel-Mestre-General espanhol, para a referida acção; houve contra ordem, segundo os avisos, que os três generais espanhóis, Cajical, Áries e Vives fizeram, pessoalmente por os franceses terem mudado de posição, e por consequencia era impossível o ataque nesse mesmo dia."

Mandou-me V. Exa. para a Junqueira, para fazer marchar as tropas que ficaram na retaguarda, para irem acampar a Bouto, segundo as ordens que V. Exa. ali recebeu do General Ricardos. Chegou V. Exa. à Junqueira no dia 22, continuei eu a ficar no mesmo sítio por ordem de V. Exa. até fazer recolher o Regimento de Peniche. Logo que passou por aquela vila, me apresentei a V. Exa.no dia 28 em Ceret.

Colecção particular
No dia 5 de Dezembro marchei por ordem de V. Exa. com quatro peças de artilharia pequenas e dois Regimentos. O 2.º do Porto e o 1.º de Olivença para o campo do Tenente-General Courten, onde se uniu comigo o Regimento de Freire, que deveria fazer reserva no dia do ataque das baterias de Vila Longa, tudo debaixo da ordem do Tenente-General Courten, em cuja acção comandei a coluna que atacou as sobreditas baterias. No dia 7 de madrugada acabei a minha comissão naquele mesmo dia, e por não haver mais nada que fazer, e achando-me alguma coisa  molesto recolhi-me ao quartel de Ceret. No dia 9, foi o Marechal-de-Campo, D. João Correia de Sá comandar o regimento de que é chefe, e o de Olivença que ainda ali ficou algum tempo. Seguiram-se os acantonamentos em Val Spire e findou a campanha de 22 de Dezembro.

Distribuíram-se os quartéis de Inverno, mandou-me V. Exa. para Banhos com o Regimento de Olivença, ficando ali também comandando o 2.º do Porto, que se acha em Paralda.

Segundo a ordem dos quartéis, estamos no lugar que nos pertence; a tropa portuguesa, é certo que o serviço que faz é penoso, porque sem embargo de ser utilidade nossa, nunca pertenceu à tropa de linha fazer guardas; é o serviço que em toda a parte do mundo faz a tropa ligeira; as consequências são as que V. Exa. não ignora, que é a multidão de doentes, que entram nos hospitais, e a falta de disciplina, que se lhe devia administrar para entrarem em campanha futura; cuja senão pode por em prática, visto o pesado serviço que se está fazendo; sei que V. Exa. tem requerido providências ao general espanhol, que comanda a linha de quartéis; mas também sei que as não tem dado.




Colecção particular

É certo que os dois Regimentos portugueses que se acham em Ceret destacados, Peniche e 1.º do Porto, nos fazem uma grande falta, para aliviarem o serviço rigoroso, que estão actualmente fazendo os quatro Regimentos: Cascais, Freire, 1.º de Olivença e 2.º do Porto, sem ambargo dos últimos ofícios que V. Exa. recebeu da nossa Corte, cujos me fez ver, e que alguma coisa lhe ampliam mais jurisdição de que as primeiras ordens, que o acompanharam no capítulo que V. Exa. leu na minha presença e na dos meus companheiros, D. Francisco Xavier de Noronha e D. João Corrêa de Sá; em me não atrevo a discernir que V. Exa. tire aqueles dois Regimentos, de Peniche e 1.º do Porto da guarnição de Ceret, sem que o general espanhol dê as providências que tem permitido em virtude das instâncias de V. Exa. para que venha tropa castelhana fazer o serviço que fazem os sobreditos Regimentos

Eu faria uma dissertação em que mostrasse bem claramente a diferença que há no serviço entre tropas auxiliares de linha, e tropas ligeiras; também não me esqueceria de falar na retirada da tropa portuguesa, no caso de ser atacada nos seus quartéis ; porém tocar estes pontos, era supor que V. Exa., os ignorava, quando estou muito bem certo que V. Exa. conhece em perfeição a natureza e delicadeza deles; a experiência me tem mostrado que V. Exa. se não esqueceu de nada que é útil, tanto para o Exército de S. M. Fidelíssima, como em buscar tudo o que é útil também para a conservação da tropa da mesma Senhora"

A este respeito tenho respondido segundo as ordens de V. Exa.

Quartel em Banhos, 7 de Março de 1794

D. António de Noronha"

(1) - Manuscrito de colecção particular

Ilustrações: marr