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quinta-feira, 23 de junho de 2011

A CONQUISTA DE SILVES POR D. SANCHO I EM 1189

TOMADA DE SILVES PELOS CRISTÃOS, DEPOIS DE UM DURO CERCO
SEGUNDO FREI ANTÓNIO BRANDÃO*


Colecção particular

Tanto que os portugueses chegaram à cidade de Silves, mandou o Conde D. Mendo recado aos estrangeiros que se preparassem para dar assalto, porque para o bom sucesso das coisas não havia meio mais acertado que mostrar aos inimigos o animo com que vinham a dar-lhes a exprimentar as grandes forças que entre si tinham. Aprovaram os capitães estrangeiros a resolução do Conde e lançando fora a gente principal da sua armada se juntaram com os nossos e assaltaram a cidade com tanto ímpeto que não obstante todas as diligencias que os mouros fizeram, em sua defesa, e a brava resistência que neles se achou, foram por fim entrados os arrabaldes (que também eram murados) com grande mortandade de infiéis. Nossas histórias carregam a mão neste passo aos estrangeiros e dizem que por culpa sua se não ganhou então aquela cidade, porque se ocuparam com demasiada cobiça em recolher os despojos, roubando as casas de tudo o que encontravam, como fazenda que lhes pertencia pelos pactos que tinham celebrados. Ou fosse esta a causa, ou que os capitães estrangeiros julgassem por bastante o que naquele dia se tinha feito, e não lhes parecesse bem o conselho dos portugueses, cuja cólera os não deixa em semelhantes ocasiões reparar nos perigos, com que se tem arriscado muitas vezes, ainda que as mais delas os tenha a ventura favorecido. Eles desistiram do combate, achando que para bom principio de vitória e para atemorizar os mouros, que era o principal intento, se tinha aquele dia trabalhado quanto convinha.

Nos dias seguintes se ocuparam (depois de enterrar os mortos e curar os feridos) em por em ordem o necessários para a continuação do cerco e antes que dessem o segundo assalto chegou o rei D. Sancho com o restante da gente portuguesa, cuja vinda fez geral o contentamento em todo o campo e os mouros começaram a julgar-se por perdidos, vendo que sobre a multidão de cristãos que os tinham cercado, se lhes juntavam novo exército e um capitão tão insigne e bem afortunado rei D. Sancho, o qual tantas vezes tinha triunfado das forças maomoetanas. El-rei fez chamar logo os capitães estrangeiros, a quem agradeceu muito o esforço que os seus haviam já mostrado no primeiro assalto e mostrou assim, a eles, como aos soldados tanto agasalho e benevolência, que lhe ficaram de novo obrigados a pôr com mais vontade a vida ao seu serviço. Mandou depois o Conde D. Mendo ordenar as máquinas que a milícia daquele tempo costumava, determinando não dilatar muito o segundo assalto, para que nem os contrários tivessem tanto tempo de reparo, nem os seus afrouxassem o animo que mostravam.

Colecção particular


Chegado o dia assinalado, para o combate, começou-se por todas as partes perigosíssimo e nele fizeram, os cristãos, coisas extremadas e os mouros puseram o último de suas forças defendendo o seu partido com tanta pertinência, que o assalto foi dilatando a maior parte do dia com mortes e feridos de ambas as partes, até que El-Rei julgou por acertado tocar a recolher, por não ver mais gente morta, nem arriscar alguns capitães de importância parecendo-lhe como prudente, que a continuação e decurso do tempo lhe meteria a cidade na mão com menor dificuldade.


Admirados, ficaram os estrangeiros, de ver o brio e valor com que os mouros se defendiam, como gente que não exprimentavam tão de ordinário suas forças, como os portugueses e mais espanhóis, pelo que como soldados práticos, vendo o pouco efeito que se fazia nos combates pela fortaleza dos muros e brava resistência dos defensores, ordenaram uma minas secretas, por onde ressalvando os alicerces da muralha pudessem penetrar no interior da cidade e pelejar de perto com os inimigos, até todos se renderem à espada. Mas os mouros que ou pela desistência de armas que os nossos mostravam, ou por alguns indícios, souberam de seus intentos, ordenaram outras contra minas, com que frustraram aos nossos os seus desígnios. Não deixaram porém os cristãos a obra que tinham principiado, antes ordenaram outras minas mais secretas e para encobrir a obra, se davam por ordem de El-Rei ordinários assaltos pelos portugueses.


Acompanharam a El-Rei nesta jornada alem de outras pessoas eclesiásticos, os bispos de Coimbra e do Porto, segundo dizem nossas histórias ambos tinham o mesmo nome de Martinho, como se pode verificar pelas confirmações das escrituras daquele tempo. E por seu conselho e à imitação do que fizera seu pai El-Rei D. Afonso Henriques no cerco da cidade de Lisboa mandou fundar uma igreja em que se celebrassem os ofícios divinos e se sepultassem os que morriam no cerco. E assim no meio dos infiéis e entre os estrondos da guerra exercitavam os cristãos daquele tempo a obras de piedade.

Colecção particular
Havia na cidade um grande poço de água nativa, de onde se proviam os mais moradores dela, tinham uma passagem, que se chamava couraça cercada de fortes muros e baluartes, por onde desciam abrigados a buscar água. Teve El-Rei aviso deste refugio dos inimigos e vendo que lhe seria muito importante assenhorear-se dele impedindo o uso da água, mandou dar fortíssimo assalto, por meio de um português, que começou a minar o muro, dando ordem e traça do que devia fazer, arruinaram grande parte, por onde os nossos começaram a subir; porém acudindo grande multidão de inimigos se lhe fez a entrada tão dificultosa, que estiveram por vezes decididos a desistir dela. Animados, por fim, com a presença de El-Rei e exemplo do Conde D. Mendo seu general e dos mais capitães do exército, que por suas pessoas exercitaram neste tempo as partes de soldados ganharam este posto, tendo custado primeiro muitas vidas.

Ganho este passo, por mais que com ele se facilitou a entrada, não deixaram os nossos de continuar as baterias e assaltos; porem com a grande resistência e indústria dos mouros se foi dilatando o cerco mais do que no principio se imaginava e foi isto por tanto espaço de tempo, que primeiro os soldados estrangeiros e depois os próprios portugueses se foram enfadando com tanta dilatação, que foi necessário a El-Rei pairar a uns e outros com muita prudência. Havia no campo sacerdotes que vieram na frota, estes como varões virtuosos e pios repreenderam os seus da leviandade e inconstância que mostravam a El-Rei (já que não havia lugar de usar outros rigores) foi também sustentado os portugueses com exortações e promessas, de modo que uns e outros se tornaram a reduzir ao estado que convinha. Vencidas estas dificuldades e feita de novo a promessa aos estrangeiros de se não levantar o cerco até certo tempo limitado, depois do qual ficasse livre a uns e outros fazer o que bem lhes estivesse, para se tomar o negócio mais a peito se purgou o exército de gente inábil e enferma e de algumas mulheres que nele havia, que costuma ser o principal impedimento e estorvo.

Colecção particular


Com a grande falta de água que já padeciam e mais misérias que andam anexas a gente cercada, fez com que o Alcaide e os principais se resolvessem a render a partido, salvas as vidas e das fazendas o que fosse razão. E assim saindo da cidade, sobre a palavra, fizeram esta proposta com muita humildade a El-Rei D. Sancho. Era El-Rei de ânimo nobre e condição afável, preservasse tanto de saber amparar a quem se lhe sujeita, como de superar e vencer a quem lhe fazia resistência, acções a todo o príncipe esperadas e louvadas. Não  podia todavia satisfazer plenamente à petição dos mouros, por se ter prometido as fazendas aos estrangeiros nos contratos que haviam feito, contudo segurou-lhe El-Rei as vidas, ainda que com muita contradição dos portugueses, que pretendiam como dizem nossas histórias mete-los todos à espada a troco de muita gente e ccapitães que nos tinham mortos no decurso do cerco. Aceitaram os mouros este partido, vendo que não havia outro remédio e assim desampararam a cidade saíram todos e acharam franca a passagem pelo nosso campo, em que ficaram bem reputados de constantes e valorosos.

Deste modo veio por esta vez à coroa de Portugal a cidade de Silves cabeça do bispado no reino do Algarve e a principal dela; permaneceu então senhorio dos portugueses pouco tempo.

Aos soldados da armada se concedeu o despojo e fazenda que na cidade havia, de que carregaram sua naus contentes com as mercês que El-Rei lhe fizera e sobre tudo com o bom sucesso da guerra. Com os capitães se tiveram da parte de El-rei todos os termos de cortesia e agradecimento, junto com mercês e favores, com que partiram satisfeitos, pregoando em toda a parte as grandezas que nela encontraram.

*In: Monarchia Lusitana - Quarta Parte, pp.12 a 14. Por Doutor Frei António Brandão, Monge de São Bernardo, Cronista-Mor do Reino. Lisboa 1536


Forntíspicio do 4.º volume da "Monarchia Lusitana"
Colecção particular


Nota: Achei por bem alterar o menos possível o texto original, limitando-me, na maior parte das vezes, a utilizar a ortografia moderna, para uma melhor compreensão, tentando manter toda a frescura do texto, principalmente no que diz respeito a alguns termos.

Coorde. e ilustrações: marr

sábado, 21 de maio de 2011

A CONQUISTA DE SILVES POR D. SANCHO I EM 1189

DESCRIÇÃO DE SILVES POR UM CRUZADO


Colecção particular

(...) Tem muitas casas e mansões ameníssimas; é cingida de muros e fossos, de tal modo que nem uma só choupana se encontra fora dos muros, e dentro de elas havia quatro ordens de fortificações, a primeira das quais era como uma vasta cidade estendida pelo vale chamado "Rouvale". A maior estava no monte e davam-lhe o nome de "Almedina" tendo outra fortificação na encosta que desce para o mesmo vale a fim de proteger o canal das águas e um certo rio chamado "Arade" ou "Drade"; outro corre para o mesmo, o qual se chama "Odelouca"; e sobre o canal há há quatro torres, de modo que  por aqui se provesse sempre água em abastança à cidade superior, e tem esta fortificação o nome de "Coirasce" (...)

 

Colecção particular

(...) As entradas pelas portas eram de tal modo angulosas e tortuosas, que mais facilmente seriam escalados os muros do que entraria alguém por elas. Abaixo da primeira era o castelo que se chamava "Alcay". Também havia uma grande torre no "Rovale", e tinha uma estrada coberta para a "Almedina", de modo que dela se podia ver o que se passava de fora dos muros da "Almedina", e os que acometessem os muros de revés pudessem ser atacados da torre, e da parte oposta, e esta chamava-se "Alvierna" (...) também se deve notar que as torres estavam tão perto dos muros de cada cidadela, que qualquer pedra atirada de uma delas cruzava até à terceira e em algumas partes ainda eram mais próximas (...).


In: Relação da Derrota Naval, Façanhas e Sucessos dos Cruzados que Partirão do Escalda para a Terra Santa no Anno de 1189. Escrita em Latim por Hum dos Mesmos Cruzados, Traduzido e Annotado por João Baptista da Silva Lopes., Lisboa 1844, pp. 14, 15 e 16.

Coorden. do texto: marr

sábado, 16 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha))

MEMÓRIA
DE
 ANTÓNIO DE LEMOS PEREIRA DE LACERDA
CAPITÃO AGREGADO
 DO
REGIMENTO DE INFANTARIA DE PENICHE

EXCERTOS DA CAMPANHA DE 1793(1)

"(...) O General D. Francisco de Noronha, havendo-me feito a honra de nomear-me interinamente para seu Ajudante de Ordens (cujo encargo aceitei com a condição de que em todos os rebates me deixaria acompanhar as minhas Bandeiras) me deu logo comissão de visitar mais particularmente, todos os postos e baterias da dependência da Vila de Ceret (...) esta diligência continha alguma delicadeza, pois que me era preciso extrair artificialmente aos comandantes das baterias o sigilo das suas misérias, o que contudo consegui com modo e manha, como o General me determinara (...)

(...) Principiei por examinar em particular o local de todos os postos; a sua fortaleza e fraqueza natural; os ataques e defesas que possuíam; os caminhos para a retirada; para combinar no fim em geral as vantagens de uns postos a respeito de outros (...) notei depois o número de calibre das diferentes bocas-de-fogo; e carência de munições, sendo estas tão escassas, que encontrei numa bateria principal apenas oito lanternetas de metralha (...)


Colecção particular

(...) O General Mendinueta dividiu as tropas do seu comando em três diferentes Brigadas, uma guarnecia os postos avançados; outra ficava de noite de retém na ponte de Ceret; outra descansava das fadigas de tanto trabalho e de duas noites perdidas. Entretanto a epidemia grassava no Exército em resultado do contínuo cansaço, da má qualidade dos víveres, da falta de policia e da imundície do próprio soldado. Assim mais se enfraqueciam os meios de resistência e mais desesperavam as coisas. Nesse tempo os espanhóis conservavam nos hospitais perto de doze mil homens; nestas fúnebres habitações entravam todos os dias centenas de doentes e todos os dias morriam centenas de soldados. Estas gentes respeitáveis, que honradamente consagraram as suas vidas à pública defesa, e à segurança do Trono e da Pátria, chegavam mesmos a acabar sem alimento e medicinas nos depósitos de enfermos, ou mais depressa em esqueletos; onde muitas vezes esperam cinco a seis dias que vagasse uma palhaça, num dos hospitais, para serem admitidos. Outros eram transportados a pé, ou em carros numa distância de oito a dez léguas para os hospitais do interior,e, expiravam pelas estradas, vitimas infelizes de um diligente governo. Outros, enfim, iam ser um espectáculo de horror pela falta de assistência, pela carência de remédios, pela ignorância dos físicos, pouca caridade dos enfermos, e ladroeira de muitos, que enriqueciam à custa de um objecto tão precioso, como a conservação do soldado (...)

(...) O hospital (português) de Altes era no seu interior o modelo mais próprio para a construção, e regímen dos melhores hospitais. Nada faltava para o bom medicamento, e trato dos nossos portugueses; e a vigilância mais humana presidia a todo o momento ao pobre enfermo. Este hospital, contudo, não podia conter mais de seiscentos homens, e o número dos doentes portugueses montava a mil e quarenta seis homens, ficando o excesso repartido pelo hospital de Ceret (...) a completa falta de víveres fazia-se temer, pois os do País estavam consumidos e o mau estado dos caminhos, com a aspereza do tempo, impedia as conduções da Catalunha. Chegámos a não ter bois para comer, não havia uma só galinha e apenas apareciam carneiros mirrados para os doentes. O General Noronha, diferentes vezes me fez representar estas faltas a Mendinueta, que ultimamente me respondeu com um - não há! (...)


Documento original Colecção particular
 (...) O exército francês encontrava-se igualmente enfraquecido pela deserção e pela epidemia, que só em Perpinhã levava à sepultura cerca de duzentos homens por dia; esta mortandade era produzida por vómitos de cóleras negras, que apenas permitiam algumas horas de vida; moléstia que talvez tivesse a principal origem no uso da água ardente com pólvora, que se fazia beber às tropas para as prepararem para o combate (...)

(...) O Barão de Kessel (a 4 de Dezembro) conseguiu mostrar-nos ao inimigo (da parte portuguesa eram os Regimentos: 1.º do Porto, Peniche e duas Companhias de Granadeiros de Freire) com forças superiores e colocá-los em inquietação, contudo ordenou a retirada, reduzindo-nos a acção deste dia a ouvirmos como assobiavam as grossas balas; desprezando a vantagem que se lhe oferecia (...) no dia seguinte intentamos a mesma manobra (do dia 4); porém a aspereza do tempo, com as chuvas que caíram, que já nos haviam trespassado numa noite fria, não permitiu que chegássemos a tempo de nos mostrar, como queríamos, sobre a madrugada do inimigo (...) o dia 7 foi então aprazado para o ataque verdadeiro, que devia ter lugar sobre a frente do nosso flanco direito. Os Regimentos 1.º do Porto, Peniche e três Batalhões espanhóis, foram ao falso ataque da esquerda. Esta tropa, na posição que tomou, a tiro em medida no flanco direito dos franceses, os conteve por ali em respeito, e sofreu constantemente a pé firme, e a peito descoberto, um vivo fogo de artilharia, que é certo, por mal dirigido, nenhum prejuízo nos causou, posto que continuasse sem interrupção desde que aclarou a alva até às dez horas; que foi quando nos retiramos, por se achar concluída a acção (...)


Colecção particular

(...) À direita atacaram, em companhia das tropas espanholas, os três Regimentos portugueses de Olivença, 2.º do Porto e Freire, que se lhes havia incorporado. A diligência e intrepidez presídio à marcha, e o valor que animava as tropas conseguiram a mais completa vitória. Com esta, depois de desbaratados os franceses, caíram em nosso poder o campo e as baterias inimigas; as Vilas de São Geniz, Longa e La Rocha; 22 canhões, 1 morteiro e 4 obuses; 1500 barracas com todos os despojos que continham; 3000 espingardas; 240 bois vivos e 40 mortos; muito vinho e aguardente, que concorreram para mais alegremente se cantar o triunfo; os provimentos em fim subsidiários para a manutenção e sustento de 12446 homens, de que se compunha o Corpo do Exército Francês por aquele lado, segundo os mapas que se encontraram na tenda do seu General (...)

Colecção particular

(...) Dos portugueses houve um soldado morto e dos espanhóis cinco, além de diversos feridos. Dos franceses morreram 200 no campo de batalha e se afirmou que se afogaram cerca de 400 no rio Tech, 550 prisioneiros e 4000 extraviados pelas íngremes montanhas de São Cristóvão, por onde, os que não desertavam para Espanha, se recolheram a Coliouvre (...) esta acção deve encher de muitas glórias as nossas tropas, que  principiaram o ataque em concorrência com duas Companhias de Guardas Valonas; e que deram motivo a que os franceses dissessem, que a chegada dos demónios dos portugueses os impediam de invernarem na Catalunha. Talvez fosse esta a principal circunstância que concorreu para se fomentar uma certa emulação e rancor ente os Aliados, e para que os espanhóis não apreciassem, quanto era justo o desinteresse dos nosso serviço, em benefício da causa alheia e de Monarca estranho (...)"


Decreto original de 20 de Janeiro de 1794
Pensão para viúvas e filhas solteiras de militares falecidos
em campanha
Colecção particular

(1): Faz parte da colecção do autor, deste blogue, uma cópia dactilografada do manuscrito, esta encontra-se em folhas bastante antigas e pelo tipo da máquina de escrever, supõem-se que este trabalho tenha sido executado sensivelmente entre 1930 e 1940.

Coorden. do texto e ilustrações: marr

quinta-feira, 14 de abril de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

RELATÓRIO
 DE 7 DE MARÇO DE 1794
 DO
MARECHAL-DE-CAMPO
 D. ANTÓNIO DE NORONHA (1)

" Em observância da ordem de V. Exa. declaro o seguinte:

Colecção particular
Em 19 de Novembro de 1793, marchei por ordem de V. Exa. para Figueiras, para V. Ex. ali me comunicar as ordens que recebesse do General Ricardos, sobre a acção que se intentava com as nossas tropas contra o inimigo pelas partes de Banhules e Sant Elmo; dirigiu-se V. Exa. a Figueiras no dia 20 , fez expedir o seu Ajudante-General, outros três ajudantes das suas ordens, para prover remédio às tropas que marcharam por outro caminho, de que necessitassem, para no dia seguinte V. Exa. e eu marcharmos, ao Quartel-Mestre-General espanhol, para a referida acção; houve contra ordem, segundo os avisos, que os três generais espanhóis, Cajical, Áries e Vives fizeram, pessoalmente por os franceses terem mudado de posição, e por consequencia era impossível o ataque nesse mesmo dia."

Mandou-me V. Exa. para a Junqueira, para fazer marchar as tropas que ficaram na retaguarda, para irem acampar a Bouto, segundo as ordens que V. Exa. ali recebeu do General Ricardos. Chegou V. Exa. à Junqueira no dia 22, continuei eu a ficar no mesmo sítio por ordem de V. Exa. até fazer recolher o Regimento de Peniche. Logo que passou por aquela vila, me apresentei a V. Exa.no dia 28 em Ceret.

Colecção particular
No dia 5 de Dezembro marchei por ordem de V. Exa. com quatro peças de artilharia pequenas e dois Regimentos. O 2.º do Porto e o 1.º de Olivença para o campo do Tenente-General Courten, onde se uniu comigo o Regimento de Freire, que deveria fazer reserva no dia do ataque das baterias de Vila Longa, tudo debaixo da ordem do Tenente-General Courten, em cuja acção comandei a coluna que atacou as sobreditas baterias. No dia 7 de madrugada acabei a minha comissão naquele mesmo dia, e por não haver mais nada que fazer, e achando-me alguma coisa  molesto recolhi-me ao quartel de Ceret. No dia 9, foi o Marechal-de-Campo, D. João Correia de Sá comandar o regimento de que é chefe, e o de Olivença que ainda ali ficou algum tempo. Seguiram-se os acantonamentos em Val Spire e findou a campanha de 22 de Dezembro.

Distribuíram-se os quartéis de Inverno, mandou-me V. Exa. para Banhos com o Regimento de Olivença, ficando ali também comandando o 2.º do Porto, que se acha em Paralda.

Segundo a ordem dos quartéis, estamos no lugar que nos pertence; a tropa portuguesa, é certo que o serviço que faz é penoso, porque sem embargo de ser utilidade nossa, nunca pertenceu à tropa de linha fazer guardas; é o serviço que em toda a parte do mundo faz a tropa ligeira; as consequências são as que V. Exa. não ignora, que é a multidão de doentes, que entram nos hospitais, e a falta de disciplina, que se lhe devia administrar para entrarem em campanha futura; cuja senão pode por em prática, visto o pesado serviço que se está fazendo; sei que V. Exa. tem requerido providências ao general espanhol, que comanda a linha de quartéis; mas também sei que as não tem dado.




Colecção particular

É certo que os dois Regimentos portugueses que se acham em Ceret destacados, Peniche e 1.º do Porto, nos fazem uma grande falta, para aliviarem o serviço rigoroso, que estão actualmente fazendo os quatro Regimentos: Cascais, Freire, 1.º de Olivença e 2.º do Porto, sem ambargo dos últimos ofícios que V. Exa. recebeu da nossa Corte, cujos me fez ver, e que alguma coisa lhe ampliam mais jurisdição de que as primeiras ordens, que o acompanharam no capítulo que V. Exa. leu na minha presença e na dos meus companheiros, D. Francisco Xavier de Noronha e D. João Corrêa de Sá; em me não atrevo a discernir que V. Exa. tire aqueles dois Regimentos, de Peniche e 1.º do Porto da guarnição de Ceret, sem que o general espanhol dê as providências que tem permitido em virtude das instâncias de V. Exa. para que venha tropa castelhana fazer o serviço que fazem os sobreditos Regimentos

Eu faria uma dissertação em que mostrasse bem claramente a diferença que há no serviço entre tropas auxiliares de linha, e tropas ligeiras; também não me esqueceria de falar na retirada da tropa portuguesa, no caso de ser atacada nos seus quartéis ; porém tocar estes pontos, era supor que V. Exa., os ignorava, quando estou muito bem certo que V. Exa. conhece em perfeição a natureza e delicadeza deles; a experiência me tem mostrado que V. Exa. se não esqueceu de nada que é útil, tanto para o Exército de S. M. Fidelíssima, como em buscar tudo o que é útil também para a conservação da tropa da mesma Senhora"

A este respeito tenho respondido segundo as ordens de V. Exa.

Quartel em Banhos, 7 de Março de 1794

D. António de Noronha"

(1) - Manuscrito de colecção particular

Ilustrações: marr

terça-feira, 22 de março de 2011

EXÉRCITO AUXILIAR A ESPANHA 1793 A 1795 (Rossilhão e Catalunha)

REGIMENTO DE INFANTARIA DE PENICHE

Após o desembarque das forças no dia 9 de Novembro de 1793, o Regimento marchou no dia 20 para Meniscle, onde chegou no dia seguinte à tarde, tendo acantonado naquela povoação. Dali marchou para Morellas, onde chegou a 26, realizando estas marchas sob constantes tempestades e chuvas torrenciais, por caminhos intransitáveis e sem pontes, o que obrigou os soldados a terem de atravessar ribeiras, de forte corrente, com a água gelada pela cintura; ao atingirem o seu objectivo, já os franceses atacavam as tropas aliadas, entre as quais alguns regimentos portugueses que os tinham procedido.

Mapa do teatro das operações
Colecção particular
Os soldados, ouvindo o alarido do combate, apesar do extraordinário cansaço e do estado lastimoso em que se encontravam, pedem aos seus oficiais que os conduzam em auxílio dos seus camaradas, chegando o Capitão agregado António de Lemos Pereira Lacerda a suplicar que lhe fossem cedidas forças para marchar e correr ao combate com um cento de militares que voluntariamente se propunham acompanhá-lo. Este simples episódio demonstrou bem o excelente moral e o elevado espírito de corpo do Regimento de Peniche, contudo o pedido foi indeferido, contra as aspirações dos animosos soldados e pela prudência do respectivo Coronel e do Tenente-Coronel Bernardim Freire de Andrade.

No dia seguinte. o Regimento passou a ponte de Ceret sobre o rio Tech,e, livre já a comunicação deste ponto com o centro dirigiu-se com o 1.º Regimento do Porto e um Batalhão de Guardas Espanholas, para Saint-Jean de Pages; sendo todos destinados à guarnição dos pontos compreendidos entres a bateria de La Sangre e a de Saint-Ferrol.

Colecção particular

Em Dezembro foram reunidas diversas forças dos postos de Ceret, Pejes e Bolou, na totalidade de quase seis mil homens, formando uma coluna que, às ordens do Marechal Barão de Kesel, avançou no maior silêncio, pela direita francesa na noite de 4 de Dezembro. Deram os espanhóis, nesta marcha, as honras da vanguarda aos Regimentos Portugueses 1.º do Porto, Peniche e duas Companhias de Granadeiros de Freire de Andrade. Após o ataque todas as baterias francesas passaram para o domínio das tropas aliadas; a cavalaria espanhola prosseguiu na planície os fugitivos franceses, rematando a completa vitória de Courten.


Ordenou o General espanhol, que as forças portuguesas se reunissem e acantonassem em Arlés e nas suas cercanias, começando essa execução pelo Regimento de Peniche, que no dia 17 de Dezembro se colocou em marcha a fim de vigiar além do Tech, as alturas de Villars, onde as guerrilhas francesas faziam grandes estragos. Antes, porém, o Regimento foi passado em revista pelo General D. Antonio de Ricardos que, tendo-o observado em manobras, lhe fez os mais rasgados elogios pelo seu garbo e perícia militar, cumprimentando o Comandante que então era o Sargento Mor Castelo Branco, a quem o intrépido Conde de La Union, que naquele acto acompanhava o General Ricardos, dirigiu as seguintes obsequiosas e militarmente significativas expressões de: Comandante! Su Regimento, no me harto de miralo!". 


Colecção particular
 Em 17 de Novembro de 1794, encontrava-se o Regimento no acampamento de La Salud, quando os franceses atacaram impetuosamente as posições, começando logo a bater a nossa posição e a retaguarda da linha ocupada pelos aliados, ao mesmo tempo que investiam com todo o vigor a posição da Madalena, ocupada por um batalhão espanhol, que se esforçava por deter o avanço do inimigo. Bernardim Freire de Andrade, que comandava interinamente o Regimento, vendo a crítica situação em que se encontrava aquele Batalhão, envia-lhe de reforço a Companhia de Granadeiros, vendo contudo a impossibilidade de continuar a marcha e de reestabelecer a situação com as diminutas forças de que dispunha, tal era a força com que os franceses atacavam, resolveu retroceder e recolher a um reduto existente ali perto.


Esta retirada tornou-se dificílima, não só porque o fogo inimigo incidia permanentemente sobre o Regimento, mas ainda porque foi cortado e desorganizado por um regimento espanhol, que debandava desordenadamente. Perdendo então a sua coesão e a boa ordem, quando Bernardim Freire tentou reunir os poucos soldados que se encontravam junto das bandeiras, apenas conseguiu contar 60 praças, algumas das quais feridas. Julgou o General Courton que Bernardim Freire podia ainda deter na sua marcha os franceses, pelo que lhe ordenou que marchasse ao encontro do inimigo, ordem que foi confirmada pelo General Forbes, Comandante da Divisão Auxiliar.

Colecção particular
Narra-nos Latino Coelho:(1)  "(...)  atravessou Bernardim Freire, sob o fogo dos franceses, a planície, ao som dos tambores e com as bandeiras despregadas e arremeteu aos seus contrários, conseguindo nos primeiros momentos a estranha temeridade, e que a uma força tão diminuta foi pouco depois impossível completar. Se parece nada plausível que as débeis relíquias do Regimento de Peniche, apesar de reforçadas com mais alguns soldados que às bandeiras acudiram no caminho, pudessem ter mão em tão numeroso inimigo, já quase inteiramente senhores da situação, segundo na sua relação afirma o seu comandante se é quase impossível que os franceses, como naquele documento se asseverava, cedessem o passo aos poucos portugueses de Bernardim Freira, e se retraíssem a um ponto superior na montanha da Madalena, entrincheirando-se nos abrigos naturais que o fraguedo lhe ministrava, não se pode todavia contestar que o Regimento de Peniche, conservou em quanto pode a sua firmeza e a sua bravura durante um combate desigual, que os esforços mais heróicos não era dado por trair (...)".


Bernardim Freire de Andrade
Com uniforme de Tenente-General, posterior
 (modelo de 1806) Colecção particular
Efectivamente, vendo Bernardim Freire que não era auxiliado no seu ataque por quaisquer outras forças e que esta não podia dar qualquer decisão ao combate, determinou que a retirada se iniciasse pela direita, a fim de não sacrificar mais os restos do seu Regimento. Apesar de ferido por uma bala que lhe atravessou o braço esquerdo, não quis Bernardim abandonar a sua Unidade, nem deixar de contribuir par a salvação das bandeiras, símbolos sagrados da Pátria e da Honra Militar, e só quando uns e outros tinham recolhido a lugar seguro, é que Bernardim Freire entregou o comando dos destroçados e desfalcados restos do seu Regimento ao Capitão José Porfírio Rodrigues de Sequeira, em virtude que o seu imediato, Capitão José Leandro de Carvalho, fora gravemente ferido durante a acção.

O Regimento de Infantaria de Peniche, como todos os outros portugueses, sofreu graves perdas, tanto em homens como em material.


MORTOS:
- Capitão José Henriques Pereira da Silva
- Três Anspeçadas


FERIDOS COM MUITA GRAVIDADE:
- Tenente-Coronel Bernardim Freire de Andrade
- Capitão José Leandro de Carvalho
- 2 Oficiais-Inferiores; 3 Cadetes, 3 Cabos-de-Esquadra e 10 Soldados


FERIDOS LIGEIROS:
- Tenente Francisco de Paula
- Alferes Francisco Tinoco Sande e Vasconcelos
- 1 oficial-Inferior, 1 Cabo-de-Esquadra e 2 Soldados


DESAPARECIDOS:
- 5 Soldados


ARMAMENTO E EQUIPAMENTO:
- 31 espingardas
- 38 baionetas
- 339 mochilas
- 417 Frascos (cantis)
Todo este material foi abandonado pela necessidade de imprimir uma maior velocidade à marcha de retirada.


Texto e ilustrações de: marr